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Conheça o pai que denunciou o YouTube para proteger as crianças de exploração comercial

Conheça o pai que denunciou o YouTube para proteger as crianças de exploração comercial

Conheça o pai que denunciou o YouTube para proteger as crianças de exploração comercial

foto de duncan maccan, um homem branco ruivo com barba ruiva, de frente para a câmera com os braços cruzados e um suéter vermelho como imagem de apoio ao texto sobre pai que denunciou o YouTubeDa publicidade infantil velada ao design persuasivo, são muitas as formas das crianças serem exploradas comercialmente on-line. Ao constatar que o YouTube coletava ilegalmente dados de crianças, com objetivos comerciais, Duncan McCann, hoje responsável pela implementação de políticas na fundação britânica 5Rights, decidiu fazer algo a respeito: processar a maior plataforma de vídeos do mundo. Com três pequenos em casa, entre 5 e 12 anos, o pesquisador e ativista britânico se tornou o pai que denunciou o YouTube, ao mover uma ação coletiva histórica pela proteção de mais de 5 milhões de crianças de seu país.

 

Foi sobre isso que McCann conversou com Josh Golin, diretor executivo da Fairplay, no evento As Infâncias na Era da Convergência Digital – 4º Fórum Internacional Criança e Consumo, em novembro do ano passado. A entrevista exclusiva com o pai que denunciou o YouTube pode ser conferida, na versão dublada, a partir de 1h05min:

 

 

Além disso, também está disponível a versão legendada e com o áudio original.

 

O modelo de negócios predominante na internet é prejudicial a crianças

foto da tela de entrevista que aconteceu no 4º fórum internacional criança e consumo em que há dois retângulos lado a lado com imagem de josh golin e duncan maccan como imagem de apoio ao texto sobre pao que denunciou o youtubePara McCann, é preocupante a falta de maior debate sobre os impactos da economia digital nos pequenos. Principalmente, sobre as constantes violações de direitos infantis que o modelo de negócios predominante na internet representa. McCann destacou em sua fala, por exemplo, que muitas empresas ainda desrespeitam o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (GDPR, na sigla em inglês) na Europa ao coletar e tratar dados infantis. Essa norma concede proteção especial às informações pessoais de crianças, assim como a Lei Geral de Proteção de Dados brasileira.

 

Nesse sentido, entre outras ações, McCann liderou a pesquisa “I-Spy – The billion dollar business of surveillance advertising to kids” (“Eu espio – o trabalho de bilhões de dólares da publicidade infantil de vigilância”). O documento explica sobre publicidade de vigilância, que se tornou o principal modo de monetizar anúncios na internet. Esse modelo de negócios se baseia no tratamento de dados dos usuários para direcionar publicidade de acordo com seus interesses. Isso também tem acontecido com crianças ao utilizarem a internet, apesar de ser uma prática ilegal em muitos países. Aqui, inclui-se o Brasil e a União Europeia.

 

McCann explicou que, basicamente, plataformas e aplicativos lucram com a atenção dos usuários. Ou seja, mantendo as pessoas conectadas o máximo de tempo possível. Isto porque, quanto mais tempo se passa conectado, mais dados são coletados e, assim, é possível direcionar mais certeiramente publicidade. Como resultado, as crianças usuárias de internet também são prejudicadas. McCann se preocupa com esse modelo de negócios que não enriquece o desenvolvimento infantil, pelo contrário:

 

“[As plataformas] roubam o tempo e a atenção das crianças” diz o pai que denunciou o YouTube. “E elas fazem isso com oferta de conteúdos que não só não são inofensivos ou insignificantes, mas que, sem dúvidas, são muito prejudiciais”.

 

Entenda por que o pai que denunciou o YouTube tomou essa decisão

Ao ser questionado por Golin sobre a denúncia que fez, McCann explica que percebeu, dentro de casa, que o YouTube, um dos sites mais visitados por crianças no mundo, coleta ilegalmente informações desse público para, entre outros fins, direcionar a elas publicidade segmentada, desrepeitando a GDPR. Então, inspirado no caso estadunidense contra a mesma plataforma, levantado pela Fairplay e que gerou uma multa histórica de $170 milhões para o Google, McCann decidiu fazer o mesmo no Reino Unido.

 

Assim, McCann entrou com uma ação, em nome dos pais de crianças com menos de 13 anos da Inglaterra e do País de Gales, contra a plataforma de vídeos por coletar de forma ilegal dados infantis. Ele explica que, se a Justiça julgar a ação procedente, o Google será obrigado a pagar mais de £ 2,5 bilhões (o que equivale, atualmente, a cerca de R$ 14 bilhões) a serem divididos entre todas essas famílias. Os adultos e seus filhos e filhas, atingidos por tal modelo de negócios predatório, de acordo com McCann, esperam que a plataforma pare de explorar comercialmente seus usuários – especialmente as crianças.

 

McCann deseja, ainda, que essa ação esclareça como as plataformas demandam o consentimento de coleta e uso de dados pessoais. Isso eventualmente levaria a uma mudança no modo como as crianças são tratadas por essa economia digital.

 

“O que estamos fazendo por aqui, pelas mesmas razões que vocês moveram a ação nos EUA, é uma reivindicação por uma mudança nas práticas na economia digital“, disse McCann a Golin. “Esperamos que essa decisão mude o modo como as plataformas interagem com os usuários que elas sabem ou suspeitam ter menos de 13 anos”, conclui.

 

Plataformas digitais não podem (nem precisam) explorar crianças comercialmente

Golin questionou o pai que denunciou o YouTube se ele enxergaria, de fato, uma alternativa a essa realidade. McCann afirma que há diversos modelos de negócios que funcionam financeiramente para empresas tanto quanto para a proteção das crianças. Ele salienta que é necessário, por exemplo, o fim do modo de financiamento por meio do uso de dados infantis. Utilizar essas informações para o direcionamento de publicidade comportamental não é, ao seu ver, a única maneira de empresas lucrarem.

 

Em diálogo com McCann, Golin ressalta, ainda, que é preciso explorar modos de monetização que sequer sejam baseados em publicidade. Isto porque, conforme ele lembra, mesmo a publicidade que não é comportamental é prejudicial a crianças.

 

Por fim, McCann defende que precisamos alcançar uma realidade em que coleta e tratamento de dados não sejam práticas comuns. “Não deveria ser dever das crianças e nem dos pais atarefados protegerem-se desse sistema de economia digital complexo“, afirmou. Por sua vez, Golin conclui a entrevista destacando que o acesso à internet é um direito fundamental de crianças também. “Afinal, se considerarmos que, no século 21, as crianças precisam estar on-line para fins de educação e entretenimento, então precisamos incentivar formas midiáticas que não sejam abusivas“, disse o diretor executivo da Fairplay.

 

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