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Uma publicidade infantil a cada três minutos: crianças estiveram muito expostas a anúncios em canais infantis de TV por assinatura em 2020

Uma publicidade infantil a cada três minutos: crianças estiveram muito expostas a anúncios em canais infantis de TV por assinatura em 2020

Uma publicidade infantil a cada três minutos: crianças estiveram muito expostas a anúncios em canais infantis de TV por assinatura em 2020

Crianças estão cada vez mais na internet, mas a televisão ainda é um meio de entretenimento muito utilizado por elas. Tanto que, dos 5 canais de tv a cabo mais assistidos no Brasil, 2 são de programação infantil. Empresas sabem disso e, apesar de ser uma prática ilegal, algumas delas insistem em direcionar anúncios a crianças nesses espaços. É isso que mostra nosso estudo recém-lançado “Publicidade Infantil na TV Paga: Monitoramento 2020”. O relatório ainda traz dados inéditos sobre a veiculação ilegal de publicidade infantil no ano marcado pela pandemia de covid-19. Nota-se que a necessidade de isolamento físico estimulou um maior uso de telas e, consequentemente, anunciantes adaptaram suas estratégias comerciais.

 

O Criança e Consumo está, há 15 anos, de olho em empresas que desrespeitam os direitos infantis e as leis, ao direcionar publicidade a crianças. Em nossa atuação, não apenas denunciamos campanhas e práticas abusivas, como buscamos incentivar o mercado para promover mudanças de postura. Este monitoramento traz dados que, sobretudo, revelam a existência de publicidade infantil em canais infantis da TV por assinatura, prática ilegal que precisa ser extinta de uma vez por todas.

 

 

Foram monitorados, entre janeiro e dezembro de 2020, os quatro canais infantis por assinatura de maior audiência no Brasil: Cartoon Network, Discovery Kids, Gloob e Nickelodeon. Os resultados apontam que, no mês do Natal, foi veiculado, em média, um anúncio a cada três minutos de programação. Dezembro foi, de fato, o mês com maior volume de publicidade infantil nos canais observados. A categoria de anúncios de brinquedos foi a principal responsável por essa alta. Aliás, esse é o setor econômico que, de acordo com o levantamento, mais anuncia para crianças, respondendo por metade da publicidade infantil no período monitorado.

 

gráfico de barras apresenta o total de inserções de publicidade infantil nos canais infantis de TV por assinatura entre janeiro e dezembro. No mês recorde, em dezembro, houve um total de 959 inserções. Em outubro, no segundo maior mês, houve 903 inserções. Em maio, mês de menor quantidade de inserções, foram 81

Gráfico faz parte do relatório “Publicidade Infantil na TV Paga: Monitoramento 2020” e mostra o total de anúncios por mês

 

Ainda, em setembro de 2020, somados os quatro canais monitorados, houve um aumento de 282% na quantidade de publicidade infantil, em relação à média dos oito meses anteriores. Isso, então, corresponde a um anúncio veiculado a cada quatro minutos de programação.

 

Os canais infantis de TV por assinatura também estão levando as crianças para outras telas

O aumento na quantidade de anúncios direcionados às crianças em datas comerciais não foi a única revelação do monitoramento. O estudo também mostrou um crescimento expressivo de publicidade infantil de mídias digitais do canal. Ou seja, diferentes formatos de mensagens publicitárias que promovem páginas da internet, perfis de redes sociais, aplicativos, jogos e demais conteúdos on-line do próprio canal em que o anúncio está sendo veiculado. A quantidade de publicidade infantil de mídias digitais dos canais em 2020 foi quatro vezes maior, quando comparado a 2019.

 

gráfico de barras apresenta uma comparação entre 2019 e 2020 do total de inserções de publicidade infantil do tipo mídias do canal entre janeiro e dezembro. Apenas em janeiro houve mais inserções em 2019 do que em 2020. Em quase todos os demais meses, a diferença é mais do que o dobro em 2020. Em novembro, mês de maior diferença, houve 201 inserções em 2020 e apenas 16 em 2019

Gráfico faz parte do relatório “Publicidade Infantil na TV Paga: Monitoramento 2020” e mostra total de anúncios do tipo mídias digitais dos canais

 

Esse aumento pode estar relacionado à própria mudança nos padrões de consumo de produtos de entretenimento. Hoje, é possível notar uma relação cada vez mais estreita entre televisão e internet. Um programa que antes era apenas consumido pela TV, por exemplo, atualmente também se relaciona com redes sociais, jogos e sites. Ainda, sabemos que a pandemia da covid-19 levou a um consequente maior uso de telas também por crianças. O monitoramento evidencia que canais infantis de TV por assinatura tiraram proveito desse contexto de isolamento físico, incentivando crianças a consumirem também sites, redes sociais e jogos digitais da própria emissora.

 

Vale lembrar que a prática de publicidade infantil é proibida em qualquer meio, inclusive na TV a cabo e na internet. Além disso, a responsabilidade de proteger as crianças é de todos: famílias, Estado e empresas – o que inclui os canais. É necessário garantir que todos os espaços frequentados por crianças sejam seguros e livres de exploração comercial infantil.

 

Diferenças observadas entre os monitoramentos de 2019 e 2020 

Esse é o segundo ano consecutivo em que o Criança e Consumo realiza um estudo dessa natureza. Em 2019, entretanto, foram monitorados apenas três canais infantis (Cartoon Network, Discovery Kids e Gloob). Como resultado, o primeiro monitoramento apontou crescimento de 331% de publicidade infantil em outubro, comparado à média dos meses anteriores. Por ser o mês do Dia das Crianças, data de grande apelo comercial, esse aumento, apesar de expressivo, era esperado conforme vimos no monitoramento de 2019.

 

Em contrapartida, em 2020, um ano atípico por conta da pandemia, tal pico de crescimento ocorreu mais cedo, em setembro. A diferença parece refletir uma estratégia anunciada pelo próprio setor de brinquedos, que buscou incentivar a antecipação das compras. Estratégia pensada diante de uma realidade que não permitiria as tradicionais compras de última hora, que geram aglomerações nas lojas.

 

“Com esse monitoramento esperamos contribuir para uma ampla reflexão sobre o caráter injusto e antiético de se explorar crianças comercialmente” disse a coordenadora de comunicação do Criança e Consumo, Maíra Bosi. “Além disso, também percebemos o quão urgente é a efetiva mudança de postura das empresas anunciantes e emissoras de TV. É preciso que parem de praticar publicidade infantil e cumpram seu dever constitucional de proteger todas crianças, com absoluta prioridade”.

 

Publicidade infantil na televisão, internet e em qualquer outro espaço de convivência das crianças é uma prática abusiva e ilegal. Então, devemos estar sempre atentos para novas e já conhecidas práticas antiéticas que algumas empresas anunciantes. Como cidadão, saiba que você pode denunciar essas campanhas e exigir a proteção de todas as crianças. Não podemos aceitar nenhuma forma de exploração comercial infantil.

 

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