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Um Carrossel de vendas: marca de sabonete invade novela infantil!

Um Carrossel de vendas: marca de sabonete invade novela infantil!

Um Carrossel de vendas: marca de sabonete invade novela infantil!

Algumas coisas que são reeditadas voltam melhor do que eram antes. Outras, nem tanto… Um exemplo é a novela infantil Carrossel, que está repleta de merchandising. Confira o que diz sobre o tema a psicóloga Lais Fontenelle, do Alana:

Foi-se o tempo em que uma criança precisava ir à escola para obter conhecimento. Hoje, basta apertar um botão. Uma outra pedagogia se instalou: a das mídias que funcionam como educadoras informais, falando diretamente com nossas crianças, ditando valores e passando informações. A criança de hoje está conectada desde o momento em que acorda até praticamente a hora de dormir. É a chamada geração Google, ou do Milênio, como colocam alguns especialistas. Ela consome diferentes mídias e muitas vezes o faz de forma concomitante.

É inegável, porém que a TV ainda é a mídia mais popular entre as crianças, principalmente as brasileiras, que estão entre as que mais assistem TV no mundo. Nossas crianças chegam a passar 5 horas, 4 minutos e 23 segundos por dia na frente da telinha, de acordo com dados divulgados pelo Ibope. E esse número pode ficar ainda mais espantoso e chegar a mais de 9 horas diárias em áreas de maior vulnerabilidade social e econômica. O problema, atualmente, é que as mídias não educam para a cidadania, como faziam as escolas de antigamente. Elas educam, isso sim, para um consumo sem reflexão – e aí mora o perigo.

Sabe-se que a publicidade dirigida às crianças na TV ainda é o fator de maior influência na compra de um produto infantil. Quando essa comunicação mercadológica vem no formato de merchandising, o apelo ao consumo é ainda pior, pois a maioria das crianças de até 8 anos ainda confunde conteúdo da programação com publicidade. Agora, imaginem vocês quando o merchandising acontece num programa infantil que se passa numa escola? Pois é… Aí o problema vira um “Carossel” de fato!

Escola deveria ser um lugar importante de formação de valores e exercício de cidadania, assim como segundo espaço de socialização das crianças depois da família. Porém, hoje, escola também pode funcionar como local de venda de produtos. O Instituto Alana recebe denúncias de práticas comerciais dentro de escolas, fantasiadas de atividades educativas, há alguns anos. Isso é um absurdo, pois tudo o que acontece na escola tem o respaldo institucional, o que faz com que não só as crianças, mas também suas famílias, tomem essas ações como algo positivo para a saúde infantil. Quando uma marca é anunciada no espaço escolar, ela fideliza a criança e sua família com mais facilidade, desde cedo.

Pois acabo de assistir a alguns capítulos da reedição da novela que marcou minha infância e vejo a Professora Helena vendendo sabonetes para crianças. Isso mesmo! A marca Lifebuoy está anunciando na novela Carrossel com uma comunicação de marketing para lá de agressiva, como ficou claro no capítulo 21, em que a professora entrega um sabonete para cada criança. Esse é somente um exemplo, pois a marca anunciou em vários outros capítulos. E essa repetição faz com que o merchandising seja ainda mais eficaz para cooptar nossos pequenos, porque a criança aprende por repetição. Então, quando uma marca aparece em seu programa predileto, repetidamente, sendo anunciado pelos personagens com os quais ela se identifica, o apelo é enorme.

Hoje em dia, é difícil pensarmos em simplesmente desligar a TV de nossos filhos… Exatamente por isso, temos que ter muita atenção em relação ao que eles assistem, já que o consumismo pode se tornar um hábito formado na infância. Enquanto pais, temos a responsabilidade de dialogar com nossos filhos sobre o que assistem, assim como limitar o número de horas que passam na frente da telinha. Além, claro, de nos mobilizar para que existam leis coibindo esses excessos. Sozinhos não daremos conta de reverter o problema do consumismo na infância. Convido, então, vocês a entrarem nesse Carrossel para fazer barulho e tentar reverter a mercantilização da infância. Nossas crianças têm direitos e um deles é o direito a uma programação infantil não só de qualidade, mas isenta de comunicação de mercado.

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