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Proteger as crianças de bombardeio de marketing é “inconveniente”

Proteger as crianças de bombardeio de marketing é “inconveniente”

Proteger as crianças de bombardeio de marketing é “inconveniente”

Maurício de Sousa Produções responde à notificação por campanhas de impermeabilizante Vedacit com a Turma da Mônica com contranotificação, exigindo que o Alana se “abstenha de interferir nas atividades” da empresa.

Que impermeabilizante não combina com criança e que deve ser vendido para adultos todos concordamos. No entanto, o consenso não impediu que uma marca desse tipo de produto fizesse publicidade para o público infantil. Em março desse ano, o Alana enviou notificações à empresa Maurício de Sousa Produções (MSP), à fabricante de impermeabilizantes Vedacit e ao site Climakids por uma campanha que colocava a Turma da Mônica junto com o produto em revistinhas especiais, outdoors e no site Climakids, nos quais os personagens citam e elogiam a marca em jogos e conteúdos de entretenimento.

Para o Alana, além das empresas realizarem ações de marketing direcionadas ao público infantil, o caso se torna ainda mais preocupante porque o produto é perigoso e deve ser mantido fora do alcance de crianças.

Para espanto de todos, os advogados da Maurício de Sousa Produções enviaram uma contranotificação ao Alana, afirmando que notificar a empresa se constitui como “abuso de direito” e que “tal comportamento ilegal não será mais tolerado pela MSP, sendo certo de que esta não medirá esforços para impedir que V. Sas. venham a produzir novos inconvenientes desse tipo”.

A MSP “exige”, portanto, que o Alana “se abstenha de interferir nas atividades da MSP ou das empresas licenciadas de seus produtos”. Para a empresa, parece ser um inconveniente que o Alana proteja os interesses das crianças nas relações de consumo, assim como sua integridade física, e que defenda que a Turma da Mônica, como personagens do imaginário infantil, têm uma responsabilidade no que vendem e anunciam para crianças. Essas questões já vem sendo debatidas e levaram a MSP a assinar um Termo de Ajustamento de Conduta em 2011, devido à inserção de publicidades em revistinhas sem que estivesse clara sua função publicitária.

O Alana, no entanto, não pretende se calar frente a essas ameaças. Com o apoio de renomado escritório de advogados, enviou resposta à referida contranotificação, reafirmando os termos de sua primeira notificação enviada à empresa. O Instituto esclarece que suas atividades não têm fins lucrativos e são consideradas de interesse público e, por isso, qualquer tentativa de limitá-las será considerada abusiva e informada aos órgãos competentes. Também ressalta que a campanha da Vedacit põe em risco a integridade física das crianças, pelo conteúdo químico do produto, e que, portanto, noticiará os órgãos competentes destas práticas abusivas para que tomem medidas legais cabíveis.

A contranotificação

Para a MSP, a associação do produto ao Cascão tem, na verdade, como público alvo os adultos, compradores de materiais utilizados na construção civil. A Turma da Mônica foi utilizada então para chamar a atenção dos adultos? Curioso… De qualquer modo, é inegável o apelo do personagem ao público infantil e, portanto, seu consequente interesse no produto.

Também alega a MSP que a revistinha da Vedacit tem como função ensinar as crianças sobre o perigo da umidade dentro de casa. Para eles, a publicidade de impermeabilizante é “conhecimento e desenvolvimento educacional”, dos quais o Instituto Alana quereria privar as crianças. De qualquer forma, sem entrar no mérito da necessidade ou mesmo interesse de crianças sobre o tema, como já se viu antes, é possível educar sem fazer propagandas. Será que o anúncio do Vedacit é a única forma de as crianças aprenderem sobre impermeabilização?

A empresa ainda alega que a criança precisaria ser exposta à publicidade para aprender a se portar criticamente frente a elas. Não é o que acredita, por exemplo, Alex Bogusky, um dos mais renomados publicitários internacionais: “Existem pessoas que acreditam que as crianças devem ser expostas a um ataque massivo de marketing desde pequenas, para aprenderem a se proteger. Isso é a mesma coisa que sugerir que nós devíamos acabar com o limite de velocidade perto das escolas para que as crianças aprendam logo a reagir ao trânsito em alta velocidade. Para mim, as consequências são graves demais”, afirmou, em entrevista para o Instituto Alana.

Continue acompanhando o caso.

Foto: Michiel S. 

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