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Dizer não ao consumismo é saudável para o desenvolvimento infantil

Dizer não ao consumismo é saudável para o desenvolvimento infantil

Dizer não ao consumismo é saudável para o desenvolvimento infantil

Enfrente o mercado e a vontade de obsolescência, diga não e tenha crianças emocionalmente saudáveis

Neste começo de fevereiro, o Criança e Consumo conversou com a conselheira do programa e psicanalista de crianças e adolescentes Ana Olmos sobre como lidar com pressões para compra de material escolar. A especialista em neuropsicologia infantil defende que a criança precisar ser exposta à realidade para que possa aprender a lidar com a frustração e assim ter um desenvolvimento emocional saudável.

Criança e Consumo – Todo início de ano letivo, os pais se deparam com enormes listas de materiais a serem adquiridos para as atividades escolares. E há grande pressão pelas crianças – influenciadas pela publicidade infantil abusiva – de que estes itens sejam aqueles com os personagens da moda. Este é um efeito novo? Como lidar?

Ana Olmos – A moda, o modismo é construído de fora para dentro das crianças. Existe um interesse comercial que gera isso em crianças e também em adultos, claro. Existe uma narrativa de que para a criança pertencer a um grupo, ela precisa ter os signos deste grupo, o que ele tem acesso – as mães, pais e responsáveis ouvem isso. Mas não é uma necessidade.

Começar o ano com caderno novo é uma delícia, mas não precisa ser de marca, e há uma grande quantidade de materiais duráveis, que o mercado pressiona para que sejam descartados, mas que podem ser reutilizados. Para a vida mental da criança é muito importante. Ela poderá resgatar algo dela, cuidar de seus objetos e conviver com o que é possível, entendendo o que é necessidade.

Criança e Consumo – Para além do diálogo para desconstruir a publicidade infantil abusiva e ilegal, como os pais devem reagir aos apelos relacionados ao consumo excessivo?

Ana Olmos – Eu observo que os pais têm muita dificuldade de dar limite de realidade para os filhos. Essa é a maior dificuldade atual, o que torna as crianças eternas credoras dos pais e os pais devedores das crianças. Esta dificuldade parte do equívoco de que o amor é dar, gratificar, quando, na verdade, o amor é trazer o princípio da realidade, que pode se confrontar com o princípio do prazer para a criança. Trazer este princípio de realidade será importante para a criança aprender a lidar com as limitações que aparecerão, inevitavelmente. Vivemos o conflito cotidianamente, o princípio da realidade aparece inexoravelmente. A criança precisa ir para a escola, mesmo que não queira. Nós adultos também temos que lidar com isso: tenho que trabalhar, independente de como está o tempo.

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Criança e Consumo – De que forma é possível alertar mães, pais e responsáveis sobre a necessidade de apresentar o princípio de realidade às crianças?

Talvez, quando a gente pense em negar a compra de um produto, não fique tão evidente a necessidade de apresentar o princípio de realidade. Então é bom usarmos outros exemplos: uma criança está chorando porque não quer tomar vacina. O amor está em dar a vacina e frustrar a criança. Outro exemplo: uma criança com diabetes não pode comer doce. O que é mais amor? É não deixar comer doce.

Criança e Consumo – Como isso se relaciona com o consumo?

Ana Olmos – A história dos produtos para escola, neste período que se inicia, entra nesta questão de garantir o desenvolvimento emocional saudável. A criança quer a mochila da moda, ou porque ela viu na escola, ou porque absorveu esta ideia do mundo atual, mas ela não precisa da mochila nova ou da mochila de marca. Se as mães e pais conseguirem compreender que podem dizer não e que isso pode ser saudável para o desenvolvimento infantil, então a pressão diminui.

Criança e Consumo – O que os pais podem fazer em vez de comprar um produto novo, seguindo nesta linha de aproveitar a oportunidade para fortalecer a capacidade da criança em lidar com as frustrações?

Ana Olmos – Na psicoterapia infantil, quando se quebra um brinquedo, é muito improtante fazer o conserto, a reparação. Isso ajuda a criança a entender um princípio que pode aplicar às relações, aos vínculos – como entender o processo de pedir desculpas ou desculpar. Podemos fazer um paralelo com os objetos e propor: vamos limpar, lavar e fazer o uso de algo que já tem e que não precisa ser considerado estragado.

Criança e Consumo – Pode detalhar como ensinar a criança a lidar com a frustração pode ser importante para o seu desenvolvimento ao longo da vida?

Ana Olmos – Precisamos entender os mecanismos de satisfação. Existe o princípio do prazer, mas há também a contradição com a realidade, que gera uma ansiedade. É importante saber que vai ter qualidade de vida maior, do ponto de vista da saude mental, a pessoa que aprendeu a fazer uso de mecanismos de defesa, que protegem contra a ansiedade, e que permite enfrentar a realidade.

Criança e Consumo – Quais são estes mecanismos de defesa?

A negação é um dos mecanismos de defesa mais primitivos: uma pessoa recebe uma notícia ruim, um exame com resultados alterados. O momento de negação permite que a pessoa jogue fora a ansiedade, para conseguir respirar. Se você repete o exame, já está mais preparada para se haver com o resultado, então foi um mecanismo usado de forma eficiente. Aquele mecanismo fez a pessoa dar uma respirada. Mas se a pessoa faz a negação, depois a procrastinação…vai acumulando mecanismos de defesa à realidade e não enfrenta o problema e o que era uma questão de saúde incipiente, cresce e aquela realidade se torna ainda pior. Quando a pessoa lida com os mecanismos de defesa, mas consegue chegar ao ponto de aceitar a realidade, ela pode mudar as práticas, lidar com a realidade, resolver a vida. Porque sempre haverá conflitos e dificuldades.

Criança e Consumo – Quando falamos de que é preciso mostrar à realidade às crianças, posso entender então que as famílias que têm condições de consumir mais não teriam motivos para negar um desejo?

Ana Olmos – Oferecer este princípio de realidade ultrapassa a realidade de ter dinheiro. Estamos falando de mostrar para a criança que a mochila é um objeto que pode ser mais perene. Ou então, no futuro, a mãe ou o pai dá um carro novo para o filho e este não entende que precisa cuidar daquele objeto, acha que pode quebrar e querer outro, cria-se uma onipotência – capacidade ilimitada de fazer qualquer coisa. Então, quando o filho está pedindo algo, cabe a mães, pais e responsáveis avaliar se aquilo é necessário.

Criança e Consumo – Então, mesmo que a condição financeira da família esteja ótima, e possa comprar todos os materiais escolares novos, é recomendável cautela?

Ana Olmos – Ensinar a criança a cuidar, a reparar é muito importante. O reparar, cuidar, é a forma da criança entender que não é zero ou cem, ou tem algo ou é rejeitado. Ajuda a criança a viver a realidade, enfrentando os limites que serão impostos cedo ou tarde. Ela só vai se fortalecer se não for tirada dos apuros, neste caso, se não for liberada para o desperdício. Quando a família opta por não jogar tudo fora, opta por reciclar, ensina, por exemplo, a reparação, um conceito que será importante na construção de relações: a reparação de vínculos.

Claro que isso vai na contramão do que o mercado quer, a obsolescência rápida, mas é uma questão psíquica, do desenvolvimento emocional saudável oferecer isto às crianças.

Criança e Consumo – O que acontece com a criança quando não tem a oportunidade deste desenvolvimento emocional a partir da frustração?

Ana Olmos – A falta, o não ter tudo na hora que quer, ao mesmo tempo. Garantir que cada coisa possa ser usada, transformada e experimentada ajuda a criança a lidar com a realidade que existe fora da redoma familiar. Quando a criança é criada com todos os seus desejos satisfeitos, ela não sai da sua impotência: quando pode tudo ela não é nada se não tiver tudo. Assim, permitir que a criança lide com a frustração fortalece a autoestima: ela pode ser aceita com o que tem e não precisa ser outra pessoa, não precisa ter acesso a todos os produtos, serviços. A criança aprende a lidar com os próprios limites dela, ela pode não ser alta, pode não ser loira. E tudo bem.

Tudo isso se relaciona com a forma que os pais ensinam a criança a lidar com a frustração. Uma criança que não aprendeu a lidar com a frustração pode desfalecer quando, na adolescência, for rejeitada em uma paquera, porque não foi treinada a enfrentar apuros.

Criança e Consumo – Há consequências para a vida adulta em não ensinar a lidar com as frustrações?

Ana Olmos – O menino e menina que não conhecem o limite da realidade, podem facilmente entrar em grupos de risco, podem se tornar pessoas que assumem posturas de risco: dirigem sem capacete na moto, transam sem camisinha… são condutas que acabam sendo de risco. Lidar com a realidade é um treino e isso deve começar em casa.

Foto: Samuel Zeller

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