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Publicidade infantil incentiva adultização e erotização precoce

Publicidade infantil incentiva adultização e erotização precoce

Publicidade infantil incentiva adultização e erotização precoce

Estímulo ao consumo de itens do universo adulto e representação de  crianças com papéis que não condizem com sua faixa etária podem contribuir para o aumento da exploração sexual infantil

 

Ana Olmos é psicanalista, conselheira do Criança e Consumo e membro do Conselho de Acompanhamento da Mídia da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Ela atende crianças há 30 anos e, algumas delas, com problemas relacionados à erotização precoce, tema complicado de ser identificado e, muitas vezes, difícil para ser lidado pelos pais e responsáveis. Quando esse é o assunto, uma coisa é certa: a sociedade precisa estar atenta ao que as crianças fazem e ao que assistem.

 

Nesta entrevista dada ao Criança e Consumo*, em 2010, Olmos esclarece algumas dúvidas e mostra como a publicidade usa a fragilidade das crianças para aumentar as vendas de produtos e serviços, às vezes, apelando para uma linguagem que pode contribuir para a erotização precoce.

 

Criança e Consumo – O que é erotização precoce?

Ana Olmos – A erotização é precoce quando acontece antes da faixa etária correta da criança para determinado estímulo. Ela é precoce, também, se os conteúdos que aparecem para ela são precoces à sua faixa de idade. Vou dar um exemplo: se você conversa sobre sexo com uma criança de 12 anos, que já tem uma ideia sobre o assunto, está dentro daquilo que seria o esperado para essa faixa etária. Agora, se aquilo que é sugerido ou até mesmo estimulado está fora dessa faixa etária, podem surgir problemas. Esse tipo de atitude é ruim e deixa a criança perdida. São informações de difícil compreensão e que podem ter impactos negativos para ela.

 

CeC – Existe relação entre erotização precoce e consumismo na infância?

AO – Para um menino de 12 anos, por exemplo, ser aceito socialmente é a coisa mais importante da vida dele. Ele pode se espelhar em hábitos, de um grupo de artistas ou de conteúdos que são veiculados na mídia. Isso vira um parâmetro para que ele esteja dentro ou fora do grupo. Mas, dependendo da idade, ele não tem senso crítico para avaliar se esse é um conjunto de atitudes que não tem relação com a maneira de viver dele, com a família, etc. A publicidade procura entrar nesse segmento de mercado, voltado para esses meninos e meninas, passando a ideia de que o consumo é o caminho do pertencimento. Muita publicidade começa assim: “Se você gosta de tal coisa…”. “Se você quer ser como tal pessoa…”. E tudo isso bate fundo na necessidade de pertencimento. Só que, no caso, o paradigma e o modelo do pertencimento são dados de fora para dentro do grupo de crianças. Não é uma escolha, nem uma via de mão dupla.

 

CeC- A erotização precoce está nessa mesma linha?

AO – Está. Recentemente vi uma reportagem que mostrava que as maquiagens para crianças estão cada vez mais sofisticadas. Às vezes, são maquiagens que têm como público-alvo quem tem poder de compra, mas todas as crianças veem. E isso gera um problema, pois muitas querem e não têm, sequer, condição econômica para comprar os itens básicos. No caso da erotização, a criança absorve modelos de atitudes, ainda que ela não possa consumir tal produto, para adquirir um pertencimento ao grupo. Os anúncios de publicidade capturam o momento espontâneo de desenvolvimento emocional para quem a inclusão ou a exclusão de determinado grupo social é questão de vida ou morte. É lançado com um belíssimo plano de marketing, que propõe uma forma de ser. Aquilo pega, você não sabe nem como pegou, e vai embora, para ser substituído por uma moda também inoculada. Nesse contexto, o erótico é distorcido em relação à idade e entra como mais uma forma de atração, fascínio e sedução. Os próprios significados são dados de fora para dentro.

 

CeC – As crianças se sentem atraídas sem saberem do que se trata?

AO – É o que acontece. Exemplo disso são as músicas. Elas atraem a criança. Lembro do período da dança da garrafa, que tinha movimentos sexualizados que, provavelmente, a maioria das crianças menores, sequer, entendia. Mas na hora que ela repete, acaba absorvendo aquilo como valor, como desejável. E aquilo não é pensado por ela como algo que não deve ser feito naquela idade. Ela simplesmente repete. A criança aprende na repetição e procura fazer várias coisas que os outros fazem, sem entender um monte de sentidos que estão por trás daquelas atitudes.

 

CeC – Em que situação as crianças estão mais sujeitas a esses estímulos?

AO – Crianças que precisam de um reconhecimento para elevar a autoestima se sujeitam mais a modelos externos. Às vezes, a menina está brincando de boneca, em suas brincadeiras de rotina, e não está pensando em namorado, em meninos, em dar selinhos. Mas, com a pressão do meio ambiente para que ela faça isso, aliada a uma falha narcísica de precisar ser reconhecida, valorizada, ela acaba indiscriminadamente se alimentando de modelos que não têm nada a ver com a sua idade emocional e cognitiva. Por isso, as crianças que têm esse perfil costumam ceder mais facilmente para serem aceitas.

 

CeC – Como os pais podem lidar com essa situação?

AO – Há ganhos de percepção que as crianças vão tendo quando elas avançam nas etapas do desenvolvimento. Esses ganhos são tanto no terreno cognitivo, quanto no terreno emocional. Por isso, na hora que passar um conteúdo, deve-se prestar atenção no que aquela média de idade comporta e também em que cultura essa criança cresceu. Então, por exemplo, para uma criança do campo, apesar de ter a faixa etária que poderia em tese receber uma informação determinada, pode não ser adequada à cultura dela. Porque ela tem os ritmos diferentes. Ela não tem os códigos visuais como as crianças das cidades e o dia a dia dela não é igual.

 

*Confira a íntegra desta entrevista, que faz parte do Criança e Consumo Entrevistas, volume 2: Erotização Precoce e Exploração Sexual Infantil.

 

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