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Empresas de comunicação e o crescimento da violência na mídia

Empresas de comunicação e o crescimento da violência na mídia

Empresas de comunicação e o crescimento da violência na mídia

A publicidade infantil é uma violência contra os direitos das crianças e a autorregulamentação é ineficaz, de acordo com a socióloga e pesquisadora Cecilia von Feilitzen

 

foto da socióloga e pesquisadora Cecilia von Feilitzen falando em um microfone

Cecilia von Feilitzen é doutora em Sociologia pela Universidade de Estocolmo, na Suécia. Como pesquisadora de mídia desde 1964, publicou cerca de 200 relatórios, artigos e livros, além de ser editora de diversas publicações suecas e internacionais, boletins e estudos de comunicação. Muito de seu trabalho tem foco em educação e na relação dos meios de comunicação com as crianças, como A Criança e a Mídia.

 

Nesta entrevista ao Criança e Consumo*, concedida em 2010, Cecilia von Feilitzen afirma que o conteúdo midiático destinado ao público infantil merece alta qualidade e que valorize o desenvolvimento das crianças, protegendo-as de qualquer risco, como o da publicidade infantil.

 

Criança e Consumo – Em primeiro lugar, fale um pouco sobre sua experiência e seu trabalho na International Clearinghouse? 

Cecilia von Feilitzen – International Clearinghouse é uma iniciativa da Unesco que começou em 1997. É um centro de conhecimento que coleta dados do mundo inteiro e informa diferentes grupos de usuários, entre eles pesquisadores, estrategistas políticos, profissionais de meios de comunicação, organizações voluntárias, professores, estudantes e pessoas interessadas sobre as pesquisas e práticas atuais nesse campo. Nós divulgamos os resultados por meio de anuários, folhetos, boletins, relatórios e um site na internet. O ponto de partida para os esforços da International Clearinghouse é a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança. Nosso foco são todos os tipos de pesquisas, e as mais importantes são aquelas que tratam da violência, dos meios de alfabetização e educação e da participação de crianças e jovens na mídia.

 

CeC – Quais são os principais aspectos que deveriam ser considerados na produção de conteúdo de mídia para crianças?

CvF – Nos meios de comunicação, o conteúdo destinado ao público infantil merece alta qualidade, variedade, e deve ser produzido para faixas etárias distintas, refletindo as perspectivas das próprias crianças. É importante que elas encontrem outras crianças representando diversas culturas na programação, assim como o conteúdo deve ser proveniente da cultura delas e estar no mesmo idioma. É fundamental também que esse conteúdo represente situações reais, e não somente desenhos animados, por exemplo. Além disso, as crianças precisam ter voz na mídia, participar do processo e produzir conteúdo.

 

CeC – Como a senhora avalia o desempenho das empresas na proteção dos direitos das crianças e adolescentes?

CvF – Sem dúvida existem companhias que protegem a saúde e os direitos das crianças. Mas, infelizmente, a maioria das empresas de comunicação que se direciona a crianças sabe muito pouco sobre os direitos delas. E mesmo que muitas destas companhias sigam códigos de conduta relacionados à ética e à responsabilidade coletiva, é muito raro que os respeitem de verdade. O resultado de propaganda sem ética são frases e mensagens vazias, que não têm importância alguma além do papel impresso.

 

CeC – Como o marketing direcionado ao público infantil pode ser considerado violência contra os direitos das crianças e adolescentes?

CvF – Crianças precisam de material de mídia que dê valor ao desenvolvimento e bem-estar e saúde – mas devem ser protegidas de informações que sejam nocivas para a sua saúde. Muito do que existe em propaganda e marketing é insalubre, por exemplo, anúncios de alimentos que podem ser considerados como porcarias, ou refrigerantes e guloseimas; e existem também propagandas que veiculam estereótipos sobre masculino/feminino ou cenas de sexo. Estudos comprovam que crianças com menos de 12 anos não entendem o verdadeiro motivo de anúncios publicitários. E pesquisas acadêmicas indicam que crianças que dão muito valor ao consumo chegam a ser mais deprimidas ou angustiadas do que as outras. O problema é que a sociedade de consumo sempre nos ensina que seremos mais felizes com tal ou tal produto, que devemos sempre comprar coisas. No entanto, esta atitude leva a uma frustração, já que as compras não podem nos trazer a felicidade que procuramos.

 

CeC – A experiência da legislação sueca em relação à propaganda teve resultado? A senhora acha que é necessária uma regulamentação estadual?

CvF – A regulamentação da propaganda na TV dirigida a menores de 12 anos tem sido boa para a Suécia. Por enquanto, não tem provocado contestações, mas só é válida para canais de TV com transmissão dentro do país. Existem, por exemplo, dois canais de língua sueca que transmitem da Inglaterra, e não são obrigados a cumprir essa legislação. Muitos países pensam em adotar regulamentações do estado relativas a junk food em propaganda dirigida a crianças, por exemplo, pois várias análises de conteúdo têm mostrado que autorregulamentações não funcionam.

 

*Confira a íntegra desta entrevista, que faz parte do Criança e Consumo Entrevistas, volume 6, e outra entrevista, onde Cecilia von Feilitzen fala sobre a compreensão de publicidade pelas crianças e a legislação sueca.

 

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