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Consumismo infantil e seus impactos na natureza: Rachel Biderman diz que é preciso tirar o consumo do centro dos valores da nossa sociedade

Consumismo infantil e seus impactos na natureza: Rachel Biderman diz que é preciso tirar o consumo do centro dos valores da nossa sociedade

Consumismo infantil e seus impactos na natureza: Rachel Biderman diz que é preciso tirar o consumo do centro dos valores da nossa sociedade

Para garantir um futuro sustentável e saudável, de fato, precisamos repensar o modelo de consumo atual. Entretanto, não podemos simplificar essa questão colocando a responsabilidade dessa mudança apenas nos ombros dos consumidores. É preciso analisar toda a cadeia de produção e, sobretudo, de onde vem o estímulo a comportamentos consumistas. Isso ocorre, sem dúvidas, desde a mais tenra idade, com empresas anunciando produtos e serviços direta e ilegalmente para crianças. É por isso que se faz tão necessário refletirmos sobre consumismo infantil e seus impactos na natureza.

 

A ambientalista Rachel Biderman, diretora interina do World Resources Institute no Brasil e nossa conselheira, estuda a fundo esse tema. Ela nos concedeu uma entrevista em 2010, que é parte integrante do livro Criança e Consumo Entrevistas, volume 1: Sustentabilidade. Biderman falou, por exemplo, como a publicidade infantil afeta o meio ambiente e reforçou a responsabilidade de empresas e governos.

 

Passados poucos mais de 10 anos, muita coisa mudou no mundo e nas formas de consumo. Entretanto, as reflexões de Rachel seguem mais atuais e urgentes do que nunca. Confira, então, um trecho da entrevista abaixo:

 

Criança e Consumo – Alguns especialistas defendem que a mudança virá com o consumidor. Você acredita nisso?

Rachel Biderman – Não acho que isso seja, de fato, suficiente. O consumidor, como ator de transformação social, poderia existir se estivesse organizado, se houvesse uma ação coordenada com objetivo comum. Existe um movimento de defesa dos direitos do consumidor e do consumo sustentável, mas, no Brasil, eles ainda são tímidos. Talvez o nível de consciência do consumidor brasileiro fosse maior se houvesse organizações não governamentais trabalhando mais fortemente nesses temas.

 

Falávamos do Instituto Alana. Incrível! Um país tão jovem como o Brasil, com uma população infantil tão grande, mas com tão poucas pessoas e instituições preocupadas com o tema. Ainda bem que existe o Alana, trazendo essa questão para a ordem do dia, e com muito esforço, porque não é fácil colocar esse assunto na mídia. Existe uma avenida enorme a ser percorrida para que o consumidor comece a ser mais exigente. O mundo hoje é gerido pelas corporações. Na área pública elege-se quem tem bons relacionamentos com os grupos econômicos. Está tudo muito amarrado.

 

CeC – Para fazer essas mudanças, não é necessário mexer ou remodelar esse sistema?

RB – Sem dúvida, tem que acontecer ao mesmo tempo. Alguns países [como o Brasil] já proibiram a publicidade infantil, por exemplo. Quando existe necessidade de uma lei, os cidadãos precisam se movimentar. Com o nível de informação que as pessoas têm hoje, elas rapidamente aderem às causas. Os movimentos sociais, as ONGs, precisam trabalhar em bloco. Não acredito em ações isoladas. Só a militância dessas pessoas pautando a mídia e nos mobilizando pode ganhar força para um entendimento nacional. E acho que ainda falta um pouco para isso acontecer.

 

CeC – Você fala de consumo sustentável, de produtos orgânicos, de roupa com tecnologia limpa. Mas tudo isso é muito caro, porque a produção é em escala menor. Fica então para a elite?

RB – Vejo que o volume de produtores e de consumidores com essa preocupação está crescendo, e isso faz com que o preço caia. Por exemplo, eu compro orgânico há 12 anos e o preço de vários itens caiu muito, outros não. Entretanto, não existe escala para alimentar o planeta com produção orgânica. Li que para produzir orgânico em escala teremos que descontaminar águas e solo, porque hoje a maior parte da área produtiva agrícola está contaminada. Mas faço parte, principalmente, do mundo dos idealistas. Acho que tudo é possível, mas vai depender da vontade que se tenha e do investimento que se queira fazer.

 

CeC – Como você vê a questão do consumismo infantil? Qual é a sua percepção do mundo hoje com relação à infância?

RB – Por mais que tivesse consciência das questões ambientais associadas ao consumismo infantil, não tinha noção do problema. Fiquei em choque quando vi as publicações e o manifesto do Alana. O nível de percepção que tenho agora veio com o livro da Susan Linn [“Crianças do Consumo – A infância roubada”]. O problema do consumismo infantil é um dos mais graves que a humanidade enfrenta, tão grave quanto a mudança climática.

 

É um brutal desrespeito usar um ser indefeso, que não atingiu um nível de discernimento para fazer escolhas, e manipulá-lo de forma acintosa. Como você pode usar esse público para fazer escolhas? Ele não só faz escolhas, como as influencia. Você transforma a criança em uma manipuladora, ao invés de transmitir valores relacionados à família e ao meio ambiente.

 

CeC – E como fazer para que as crianças entendam sobre consumismo infantil e seus impactos na natureza?

RB – Quando estou com minha filha, tento mostrar que consumo não é tudo, que não traz felicidade. Em um mundo em que existe medo de sair às ruas, as pessoas vão para o shopping, pois é um espaço seguro, onde se pode transitar tranquilamente. Mas ali é o templo do consumismo. As crianças veem o consumo na televisão, no passeio. E se a escola ainda reforça, não há escapatória. O papel das escolas é fundamental. Elas precisam incorporar o problema do consumismo infantil seriamente nas suas diferentes disciplinas, como foi incorporada a questão dos direitos infantis e do meio ambiente.

 

Rachel Biderman finaliza sua fala sobre consumismo infantil e seus impactos na natureza

“Outra coisa é que precisamos trabalhar esse modelo de sociedade que colocou o consumo no centro dos valores. Ele foi alçado a um valor existencial. Fiz uma disciplina chamada ‘Consumo em Espaço Público’ e li um livro do Edward Bernays. Ele é um austríaco, sobrinho do Freud, e foi um dos criadores do Marketing. Não por coincidência, conhecia profundamente os escritos do tio sobre o inconsciente e transportou a noção para o mundo corporativo. Ele escreveu: ‘Se você projetar na mente de uma pessoa que ela precisa de alguma coisa, aquilo lá vai ficar, e a pessoa não percebe’.”

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