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Unboxing: crianças fora da caixa

Unboxing: crianças fora da caixa

Unboxing: crianças fora da caixa

Neste Dia do Consumidor, um convite a refletirmos sobre a relação entre empresas e audiência infantil no Youtube

 

Por Livia Cattaruzzi*

 

As estratégias de publicidade e comunicação mercadológica dirigidas a crianças são um empreendimento rentável e bem-sucedido. Se a publicidade infantil não funcionasse e influenciasse, não veríamos tantos anúncios voltados a esse público espalhados por aí, em escolas, parques públicos, canais de TV, aplicativos, pontos de venda, redes sociais e – na estratégia do momento – canais na plataforma YouTube.

Segundo a pesquisa TIC Kids Online 2017, 74% das crianças de 9 a 10 anos e 82% entre crianças de 11 a 12 são usuárias de internet no Brasil. Sobre o uso, 84% das crianças de 9 a 10 anos assistem a vídeos, programas, filmes ou séries. Um estudo sobre consumo e produção de conteúdo para crianças no YouTube, realizadopelo ESPM Media Lab, indica que, até o fim de 2017, a audiência do conteúdo voltado ao público infantil na plataforma ultrapassou os 115 bilhões de visualizações. Entre os 100 canais de maior audiência no YouTube Brasil, mais da metade traz conteúdos voltados e/ou consumidos por crianças.

Observado esse cenário, não é possível afirmar ser coincidência ou obra do acaso que, atualmente, o modelo mais adotado por empresas para direcionar publicidade a crianças sejam vídeos de unboxing produzidos por youtubers mirins.

Nesses canais, via de regra, a criança youtuber publica conteúdos lúdicos e divertidos que fazem parte do universo infantil, como brincadeiras de faz de conta, desafios, organização do material escolar, novelinhas e outras atividades cotidianas. São vídeos assistidos, repetidamente, por milhões de crianças.

As empresas, cientes do interesse das crianças por esses canais e da enorme visibilidade, impacto e influência que os youtubers mirins exercem, passaram a enviar presentes a esses influenciadores digitais, convidando-os a promover, de maneira velada, produtos e mais produtos em seus canais e redes sociais.

Os vídeos de abrir e apresentar brinquedos se confundem com os demais conteúdos produzidos pelos youtubers mirins. A linha entre anúncio e entretenimento é quase imperceptível, até para um adulto. As empresas sabem disso e fazem questão de tirar proveito dessa zona cinzenta se valendo de um espaço de comunicação e entretenimento para promover marcas e produtos, aproveitando-se da relação de confiança que se estabelece entre a criança produtora de conteúdo e a espectadora. Assim, os youtubers mirins acabam por veicular publicidade abusiva e ilegal dirigida ao público infantil.

A eficácia das estratégias de marketing e publicidade é um dos fatores centrais para explicar o consumismo da sociedade moderna, e o estímulo ao consumo excessivo e desenfreado tem feito parte da cultura do YouTube. Nos parece óbvio, então, que essa intensa manifestação de consumismo esteja afetando boa parte do público infantil que acompanha esses canais de unboxing e de youtubers mirins e teens.

Isso porque os vídeos de unboxing criam demandas e acabam por incutir nas crianças o desejo de consumo do que está sendo “anunciado”.  Pode-se dizer que esse tipo de conteúdo cria crianças consumistas e materialistas e, possivelmente, insatisfeitas e infelizes, sempre em busca do próximo lançamento.

 

* Livia Cattaruzzi é advogada do programa Criança e Consumo

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