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Publicidade mascarada é grande vilã da amamentação exclusiva

Publicidade mascarada é grande vilã da amamentação exclusiva

Publicidade mascarada é grande vilã da amamentação exclusiva

por Giovanna Balogh*

Amamentar exclusivamente até os seis meses e continuar de forma complementar até dois anos ou mais, como recomenda a OMS (Organização Mundial da Saúde), é algo para poucas mulheres. A culpa por esse ‘fracasso’ – se é que podemos chamar assim – não é da mãe, mas de tudo o que ela precisa enfrentar para conseguir amamentar seu bebê sem bicos e leites artificiais.

Um dos maiores vilões da amamentação é a publicidade mascarada que ocorre de tantos produtos que prejudicam o aleitamento materno. São raros os pediatras que vão indicar para uma mãe uma consultora de amamentação, mas a grande maioria está pronta para prescrever uma marca de leite artificial assim que surgir a primeira dificuldade. A indústria do leite é tão presente que patrocina, inclusive, congressos em resorts no Nordeste e uma das principais marcas faz publicidade no site da própria sociedade que representa os pediatras brasileiros. São essas indústrias também que enviam brindes e representantes aos consultórios deixando amostras e panfletos ao profissional. Agora, vamos refletir: que marca de leite o médico vai lembrar na hora que faz a receita do leite artificial?

Apesar de existir uma legislação vigente (leia mais abaixo) que impede a publicidade de chupetas, mamadeiras e afins, as grandes marcas de leite encontraram uma outra maneira de burlar a legislação: enviam kits com leite e presentes para as blogueiras de maternidade, que fazem publicidade – a grande maioria de forma gratuita –  para essas marcas. Vale ressaltar que o custo para as empresas é mínimo, no entanto, conseguem atingir o público alvo gastando centavos, afinal, ganham divulgação em troca de envio de produtos, os chamados ‘recebidos’.

Como a internet é terra de ninguém, a divulgação ocorre sem qualquer tipo de fiscalização e a propaganda continua sendo feito apesar das leis e normas vigentes.  A mãe que está cansada, com o peito sangrando, sem dormir, sem apoio, vai recorrer ao tal leite que a blogueira que ela tanto admira divulgou – mesmo que a influenciadora divulgue, mas não use o produto nos próprios filhos. Ou o que o pediatra prescreveu, afinal, ele é “médico e sabe o que é o melhor para o meu bebê”.

Fora que nenhuma empresa é realmente amiga/incentivadora da amamentação…e sabe o motivo? Por que amamentar no peito é gratuito, não gera lucros. Se uma mamadeira ou chupeta é introduzida na vida do bebê já pensou que cliente em potencial surge ali? O bebê vai ganhar mamadeiras, depois copinhos, infinitas chupetas, esterilizador de mamadeira, enfim, é uma gama de produtos que essa família passa a consumir.

Esses são apenas alguns dos exemplos que prejudicam e vão minando a confiança – mesmo que não descaradamente – da mulher de amamentar.  Não podemos deixar de lembrar que no Brasil, a média de amamentação exclusiva (quando o neném ingere somente leite materno) é de apenas 54 dias, ou seja, menos de DOIS meses.

É preciso destacar que somado a toda publicidade que chega até a essa nova mãe, é cultural da nossa sociedade não tratar a amamentação de forma prioritária. Lembra quando você era criança e brincava de casinha? Quais acessórios vinham com suas bonecas? Não lembra? Vá até uma loja de brinquedos e olhe. A maioria vem com uma mamadeira, uma chupeta ou com os dois ‘acessórios’.

Quando a mulher engravida, os mesmos itens estão como ‘indispensáveis’ na lista do enxoval da maioria das lojas. As mamadeiras indicadas são aquelas caríssimas “que não dão cólica e ainda por cima ‘imitam’ o seio materno”. Chupetas e mamadeiras também são objetos usados para decorar a festinha do chá de bebê e até a lembrancinha da maternidade.

Nos primeiros dias de vida do bebê, a mãe tem muitas dúvidas sobre a melhor maneira de conduzir a criança, seja na hora do banho, nas trocas das fraldas, na limpeza do umbigo ou, principalmente, no aleitamento. A insegurança fala mais alto e a falta de informação qualificada remete aquela mãe ao “socorro” das mamadeiras e chupetas.

Assim que o bebê nasce, em vez de ir para o colo da sua mãe, é levado para o berçário onde recebe um ‘complemento’ – muitas vezes sem o consentimentos dos pais –  para que a mãe possa se recuperar, afinal, “ela ainda não tem leite”.

Começa aí as dificuldades e a culpabilização materna para o fracasso na amamentação. Sem orientação correta e cercada por profissionais que não apoiam ou simplesmente não entendem sobre aleitamento materno, o destino dessa mulher é já sair da maternidade com a prescrição do leite de fórmula famoso para dar tantos mls de três em três horas.

SAIBA MAIS

O Brasil tem uma lei restrita que impede a publicidade de leites e bicos artificiais, no entanto, as empresas ainda encontram formas de burlar a fiscalização, que é pouco eficaz. Você não vê propaganda dos tais bicos e leites artificiais na mídia tradicional justamente por conta da NBCAL (Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos para Lactentes e Crianças de Primeira Infância, Bicos, Chupetas e Mamadeira). Mas, os grandes supermercados seguem infringido as regras fazendo, por exemplo, promoções de latas de leite na linha “compre 2 e leve o terceiro grátis”.

 

A NBCAL é um conjunto de normas que estipula uma série de regras para  a promoção comercial e a rotulagem de alimentos e produtos voltados para crianças de até três anos, como leites, papinhas, chupetas e mamadeiras. Ela foi criada com o objetivo de garantir que esses produtos não interfiram na prática do aleitamento materno.

Além da NBCAL, a lei 11.265/06 e  o decreto 8.552/15 estabelecem que também é proibido dar amostra ou fazer doação de produtos como fórmulas infantis, chupetas, bicos e protetores de mamilo.

É muito importante que a sociedade conheça as leis e denuncie sempre que encontrar algum tipo de irregularidade. Tanto a Vigilância Sanitária tem o poder de fiscalizar um estabelecimento comercial assim como denunciar essa publicidade para o Procon e para a  Ouvidoria da Anvisa clicando aqui. As empresas e os estabelecimentos que infringirem a lei podem ser advertidos e receber outras punições que vão desde multa até o cancelamento de registro do produto.

*Giovanna Balogh é jornalista, autora do portal Mães de Peito. Também é mãe de Bento e Vicente, doula e consultora de amamentação

Foto de capa: Via Flickr

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