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Publicidade de cerveja e o consumo precoce de álcool

Publicidade de cerveja e o consumo precoce de álcool

Publicidade de cerveja e o consumo precoce de álcool

Professor César Pazinatto, especialista em prevenção ao abuso de álcool e drogas, traça paralelo entre a publicidade de cervejas e o alcoolismo precoce.

Em períodos como o carnaval, há um aumento do número de publicidade de bebidas alcoólicas, sobretudo de cerveja, em função dos eventos patrocinados por grandes marcas de bebidas. No período, há um reforço da normalização do consumo da bebida, segundo César Pazinatto, biólogo e professor de Ciências, que aponta a publicidade como um dos impulsionadores desse tipo de comportamento.

Pazinatto também critica as campanhas de responsabilidade social realizadas por grandes empresas produtoras de bebidas alcoólicas, por entender que essas entendem o consumo de álcool praticamente como uma regra . “Tem gente que não bebe nada. Vai consumir com moderação como pede a propaganda?”, questiona.

Confira abaixo a entrevista que Pazzinato concedeu à equipe do Criança e Consumo.

Criança e Consumo – Qual o impacto da publicidade de bebidas alcoólicas no consumo precoce de álcool para crianças e adolescentes?

César PazinattoO impacto é grande pela atratividade que a bebida alcoólica sempre teve. É claro que as coisas melhoraram um pouco, mas ainda há grande impacto. Qualquer pergunta hoje que se faça para adolescentes sobre propaganda geralmente tem as de cerveja como as mais lembradas. Claro que estamos em uma época muito melhor do que em tempos em que haviam coisas como a propaganda da “Tartaruga da Brahma”, que ficou famosa devido ao forte apelo que possuía. Mas ainda podemos observar que as publicidades de cerveja têm grande impacto no consumo precoce de álcool devido ao tempo que possuem na grade da televisão.

É possível fazer um paralelo entre o consumo precoce do álcool e períodos como o Carnaval? O excesso de publicidade desse produto estimula uma atitude pró-álcool?

César Pazinatto – Sem dúvida nenhuma, estimula. É claro que no Carnaval há intensificação da exposição do jovem às propagandas de bebida alcoólica, mas a cerveja tem uma exposição praticamente constante na mídia. Os esportes são todos patrocinados pela cerveja, clubes de futebol patrocinados pela cerveja. Isso leva a uma exposição praticamente que constante durante o ano. No Carnaval, isso se intensifica com a questão dos blocos. Então, pensando em uma faixa de adolescentes, de 13 a 14 anos, que já começa a ir para as baladas com mais frequência, o carnaval tem um impacto um pouco maior.
A exposição das propagandas de cerveja em relação aos menores de idade pouco se altera ao longo do ano. No Carnaval há a preocupação do excesso de consumo, que nesse período se intensifica. No entanto, as marcas de cerveja sempre trazem a ideia de que o consumo de álcool é normal em suas publicidades: “festa boa é a que tem bebida alcoólica”, “se não beber não é legal”, esse apelo traz a ideia de que beber na balada é normal.

Qual sua opinião sobre a legislação brasileira, que não considera como bebida alcoólica aqueles produtos com menos de 13 graus Gay-Lussac (como é o caso da cerveja, de bebidas “ice” e alguns tipos de vinho)?

César Pazinatto – Na verdade, a legislação não só está permitindo, mas mantendo o consumo grande de álcool por jovens e adolescentes, fruto da liberalização com relação à propaganda de cerveja e essas idas e vindas legais. Até os estádios estão conseguindo voltar à legislação anterior, ou seja, estádios de futebol liberam bebidas alcoólicas. Essa atitude ambígua só colabora para o consumo precoce de álcool. Essa falta de certeza com o que é mantido em termos de legislação reforça uma posição normativa em relação ao consumo de álcool. Como se fosse normal todo mundo beber álcool. Quando se lida com adolescentes é costumeiro ouvir deles que todo mundo bebe, que cerveja é algo bom.

Não mudou nada com a autorregulamentação, com as leis. Precisamos fazer um trabalho intenso com as famílias sobre não ser normal beber álcool antes dos 18 anos, não ser normal ir numa balada e voltar acabado.

Como você avalia a viabilidade das práticas de responsabilidade social das grandes empresas produtoras de bebidas alcoólicas? Há uma efetividade nessas práticas?

César Pazinatto – Eu tenho uma história interessante sobre isso: um trainee da Ambev foi meu aluno em uma escola em que trabalhei. Eu soube disso porque participei de uma palestra na Assembleia Legislativa de São Paulo sobre a questão do jovem e do álcool. Esse ex-aluno, no dia seguinte a minha palestra, ligou para mim. Ele comentou que eu havia mencionado na palestra uma campanha da Skol chamada “República Redonda”. A Skol patrocinava campanhas de repúblicas estudantis no interior do Brasil e nas faculdades. A república melhor qualificada simplesmente era inteiramente patrocinada pela Skol. Desde a tampa da privada até o videogame da república era patrocinado pela empresa.

Quando ele me ligou disse que a ideia da campanha foi dele quando ainda era trainee da Ambev, mas que havia sido promovido à condição de encarregado da área de consumo responsável da empresa. Aí eu fiquei mais preocupado ainda, porque se um trainee da Ambev que desenvolveu essa ideia, que funcionou durante três anos, é alçado à função de responsabilidade social da empresa, na parte de consumo responsável, é de se apavorar.

É só para você ter ideia de como a coisa funciona. É politicamente correto, tem um programa de responsabilidade social, mas trabalhar o consumo com moderação é trabalhar com o consumo. Tem gente que não bebe nada. Vai consumir com moderação como pede a propaganda? Eu não acredito nesse trabalho deles. Acho que presta mais um desserviço.

Ainda nesse aspecto de responsabilidade social, a AmBev, por exemplo, é a maior patrocinadora das atléticas nas universidades. E o que menos uma boa parte dos universitários faz é beber com moderação.

Como essas questões podem ser tratadas com os adolescentes e com as crianças no dia a dia do âmbito familiar?

César Pazinatto – A família deve orientar  sobre o consumo de álcool após os 18 anos e a escola pode ser parceira nisso. Existem escolas que possuem trabalho de prevenção muito bem feito. Uma das estratégias que eu gosto muito de usar, e que as escolas podem e devem usar, é fazer a alfabetização dos jovens em relação à mídia. Eu gosto muito do trabalho de desconstruir a publicidade, começo com as de cigarro e depois passo para as álcool. A ideia é mostrar que a propaganda é feita de uma forma para enganchar. Se você analisar a coisa mais friamente, você terá uma atitude mais responsável.
Já as escolas precisam de estratégias constantes desse tipo de orientação. Elas devem trabalhar com um programa já montado, não adianta chamar palestra uma vez por ano, uma vez a cada quinze dias, porque isso não resolve. Deve existir um trabalho estruturado e parcerias com as famílias desde cedo sobre aspectos ligados à saúde, por exemplo. Podemos retardar o consumo. Impedir é difícil, mas podemos retardar.

O que seria ideal em termos de políticas públicas? Seria possível a sociedade avançar em termos regulatórios?

César Pazinatto – Ainda são pouco divulgados os efeitos do álcool para o organismo humano. Obviamente, quanto maior o consumo, maiores são as consequências. As políticas públicas passariam por campanhas de conscientização severa em relação às questões ligadas ao efeito do álcool para a saúde, assim como houve no caso do tabaco. Passariam por uma regulação da propaganda do álcool, como o tabaco passou: hoje se tem publicidade do tabaco restrita ao ponto de venda. A propaganda do álcool está espalhada por todas as mídias, por todos os lugares. Deveria haver legislação mais dura em relação à venda da bebida alcoólica. O problema é que o lobby das indústrias de cerveja é muito grande. A indústria do álcool quer até fazer parceria com a OMS (Organização Mundial da Saúde).

Leia mais sobre o assunto na publicação “Criança e Consumo – Juventude e Álcool“, uma série de entrevistas com especialistas.

Foto: Via Flickr

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